quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Se ying diu sal (aka Snake in the eagle’s shadow) – 1978

Primeira colaboração entre Jackie Chan e Woo-ping Yuen que, sem atingir a mestria do sucessor Jui Kuen (aka Drunken Master), não deixa, para uma estreia, de ser um fabuloso filme de porrada oriental. Chamem-lhe kung-fu, como queiram.
Chan é aqui um pobre coitado à mercê dos caprichos dos alunos e encarregados da escola de artes marciais Hungwei. Farto de ser saco de boxe dos outros decide aplicar-se e desenvolver-se como lutador. Encontra casualmente o mestre na técnica do punho de cobra, interpretado pelo pai de Woo-ping Yuen, Siu Tien Yuen, que o aceita como discípulo, mas que por sua vez está a sendo perseguido por um maníaco professor da técnica da águia que o quer eliminar, assim como todos aqueles mestres que ensinam outras técnicas. Chien Fu (Jackie Chan) herda então, a muito custo (já se sabe como são as cenas de treino nestes filmes), os ensinamentos da técnica da serpente de Pai Cheng-tien (Siu Tien Yuen). Mas como aplicado e inexcedível aluno que é começa a desenvolver uma outra técnica, a partir daqueles princípios, a técnica do gato. E assim cria uma mutação no seu estilo, originando o estilo cobra-gato que o leva à vitória final sobre o vilão principal Sheng Kuan (Jang Lee Hwang), mestre da técnica da águia, se ainda se lembram. Esta intriga toda entrelaçada com uma outra que conta a rivalidade entre duas escolas de artes marciais (que bem podia estar noutro filme) e sua angariação de novos, e ricos alunos, para o seu bom nome.

O que é que em termos de enredo isto traz em benefício dos filmes de artes marciais? Nada. Mas quem é o tolinho que vibra com estes filmes à espera de novos devaneios de argumentista?
A força do filme está, como seria de esperar (mas não deixando de nos surpreender), nos combates coreográficos: precisão (movimentos de câmara), tempo (montagem), inventividade e comédia (neste filme até nem tanto). Mas aqui as cenas de treino são as mais brilhantes. A cena da tigela de arroz (memorável), o arco de madeira, os ovos nas estacas, etc. É até um filme exemplar em termos de uso do scope. Aliás os filmes deste período de Woo-ping serão todos exemplares, em vários sentidos, para calarem os detractores deste género popular.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Caged – 1950

Há aqueles que, como eu, basta mencionar as quatro palavras anglo-saxónicas women in prison picture para que uma parte do encéfalo salte do sítio, salte de contentamento. Parte essa que é vizinha daquela que salta ao som de filme pornográfico. Apesar dessa parte do meu encéfalo ainda ter estado a saltar segundos antes de me pôr a ver este filme de John Cromwell depressa ela se acalmou, pois este não merece o adjectivo de xxxploitation. É, pelo contrário, um drama sério (o que muitas vezes não quer dizer melhor) e de denúncia sobre o cárcere. Marie Allen é uma inocente jovem (mas não totalmente inocente em relação ao crime a que foi condenada, aliás o filme nunca chega a esclarecer cabalmente os motivos porque foi condenada, pois só nos é dito, por ela, a sua versão.) Dizia eu que essa inocente jovem se vai desgastando no tempo, de um ano, enjaulada nas precárias condições daquele estabelecimento prisional. Recurso após recurso as suas liberdades condicionais vão-se esfumando. Entra para lá grávida sai de lá sem saber onde pára o filho (que a mãe dela, lá fora, se recusou a cuidar.) Entra sem qualquer ligação ao mundo do crime (foi um fait-diver que a pôs lá dentro), sai com a única solução de “emprego” a entrada para aquele mundo (o final faz nó na garganta.) Entra ingénua e sai encurralada. Há uma cena brilhante, pelo ponto de vista da directora do estabelecimento vê-se a fotografia de condenada no dossiê, com os olhos de Allen ainda assustados ainda incrédulos, e depois a câmara sobe enquadrando Allen, que entrara no escritório da directora, desgrenhada com olhos de condenada e nada inocentes.

Um elenco formidável, Eleanor Parker como Marie Allen, Agnes Moorehead como Ruth Benton, directora da prisão, Betty Garde como Kitty Stark, e Hope Emerson como Evelyn Harper (tremendo papel de megera carcereira), num filme que toca em feridas difíceis de sarar numa sociedade que não sabe lidar com os excluídos (e qual é que sabe?). Todas elas, as personagens, excepto uma, a megera, partem do ponto a para o z, tal a distância que separa as incertezas inicias das certezas finais. A megera (continuo a chamá-la assim porque, para além de ser o termo correcto, foi por ela que se incluiu o filme no ciclo “Megeras no cinema” na cinemateca) é a única que sem ilusões tenta sufocar a liberdade das outras (com uns arranjinhos por fora) de modo a mantê-las na ordem.

É de assinalar o papel do homem no filme, que fisicamente é quase inexistente – só nos aparecem nas figuras dos gangsters finais são de papelão, mas taxativas, e nos superiores da directora Ruth Benton, que pouco fazem para a ajudarem a manter a ordem. São eles que, quando nomeados, levam com as culpas. Foram eles, por diversos motivos, que as puseram lá dentro, é a eles que Evelyn Harper se socorre quando vê o seu emprego em perigo (apesar das tentativas de Benton em despedi-la), são eles que põem Benton entre a espada e a parede em diversas situações. Apesar dali dentro aquilo ser um “women’s world” é esclarecedor que lá fora o estigma “it’s a men’s world” permanece e sufoca-as. Como responderia a directora no final, após vê-la partir no carro com quatro gangsters, à pergunta de uma funcionária sobre o que faria ao processo de Allen, “Keep it. She’ll come back.”

The mask of Fu Manchu – 1932

Glorioso filme de aventuras de Charles Brabin. Inserido naquela época de serials (filmes curtos de aventuras exóticas, sci-fi ou outras coisas que tais), e apesar de não o ser totalmente, este destaca-se como um dos melhores.
Uma mão cheia de exploradores ingleses descobre, algures no oriente, o túmulo de Genghis Khan. Uma comitiva, que ainda permanecia em Inglaterra, parte imediatamente para lá para saquear os artefactos que descansam no seu interior, a famosa máscara e espada de Khan, na tentativa dos exporem nos seus museus. Contudo o temível Fu Manchu também anda atrás das relíquias, com o intuito de, através delas, ressuscitar o espírito guerreiro do magnífico Genghis Khan e conduzir uma interminável horda de amarelos chineses sobre as fracas nações brancas ocidentais. É claro que nestes tempos, nestes filmes, estas temáticas continham sempre intragáveis conotações racistas (até por lá andam pretos a fazerem-se de imóveis sentinelas imponentes… no fim acaba tudo em carne para canhão, claro está.) Mas tudo é facilmente ultrapassável, pois tudo é caricatura, tudo é papelão, tudo é pseudo-exótico, tudo é ingénuo.

Boris Karloff (encarnando, pela única vez, o diabólico Doutor Fu Manchu) é soberano como vilão. Myrna Loy (Fah Lo See, filha do Doutor) é exótica q.b. Os ingleses encarnam outros papéis-chapa-4, muito saudáveis neste género (o canastrão, a loira em apuros, o arqueólogo ambicioso, etc.) Os cenários são de papelão (Hollywood no seu melhor): grutas, maquinaria de tortura e científica que só visto, o túmulo de Genghis Khan, o palacete de Fu Manchu, o oriente no geral, é tudo fantástico. Animais exóticos aos molhos: crocodilos, serpentes, tarântulas, salamandras. Muito explode a nossa imaginação ao ver aquilo. E, como se sabe, muito explodiu na imaginação de jovens miúdos de então, e futuros cineastas, tais como Fuller, Spielberg, Lucas, Dante, Corman. Quase que aposto que todos devem, ainda hoje, no céu ou na terra, estar agradecidos ao senhor da bilheteira, que vendou os olhos e fez ouvidos moucos, quando os deixou assistir ao The Mask Of Fu Manchu numa qualquer matinée.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Wild tigers I have known – 2006

Um filme sobre o encontro natural com a sexualidade. Mas há encontros mais brutais que outros, naturalmente. Logan (Malcolm Stumpf), solitário protagonista, miúdo de um só amigo, não sabe como lidar com ela (nem parece saber o que ela é) e por isso refugia-se nos sonhos e desejos que lhe assaltam constantemente a cabeça (e o coração). Sonhos esses que envolvem tigres, leões e aranhas. Um dia esses sonhos e desejos ganham um norte. Um rapaz mais velho Rodeo (Patrick White), também ele um solitário que vagueia pela escola, provoca em Logan uma certa identificação e atracção. Faz-se então amigo de Rodeo, que o leva a ver cool stuff, como leões no mato. Mais tarde descobre que Rodeo, não partilha com ele a mesma atracção, gosta de moças, o que faz com que a sua frustração e alheamento se tornem mais acentuados. Sentimentos esses que se vão manifestar em novas formas de se encarar: tenta olhar-se como mulher, na forma como se traveste, na forma como se “ouve” com voz feminina (as cenas ao telefone, entre Logan e Rodeo, são fantásticas), etc. Isto leva, necessariamente, em sociedades guiadas pelo preconceito, à descriminação, ao abandono, às incertezas da vida e às certezas da morte. O final não desvendo mas garanto-vos que é justo.

Wild Tigers I have Known (gosto bastante do título, aliás é daqueles títulos que faz um filme) é intrigante, os sonhos não cessam de invadir a realidade (ou o contrário?) Há uma imagem recorrente que, de certa forma, vai ancorando o filme: a tentativa do miúdo se encontrar na imagem que lhe é devolvida pelo espelho que está, cliché, fracturado. Imagens essas que rimam com outras em que o miúdo olha para a câmara, olhando-nos (tentando reconhecer-se em nós?) Por vezes, parece-me, que Cam Archer o filma assim na intenção dele próprio também tentar o reconhecimento naquele rapaz.

A grande pedra no sapato do filme, e é de facto grande, é as referências estarem ainda demasiado evidentes. David Lynch (realizador de narcóticos pesadelos) e Sud Pralad (aka Tropical Malady), de Apichatpong Weerasethakul (sim, muito por causa dos tigres, mas não só), são duas referências que me parecem estar no seu cerne, o que o debilita um pouco, não só por não estar ao nível delas mas porque aqueles universos são de tal forma pessoais e genuínos, que se tornam de difícil apropriação. Apesar disso o filme consegue dar-lhes alguma “coerência”, intriga e sensualidade, típicas da cabeça fervilhante de um rapaz em crise de identidade sexual, logo pessoal.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Jôi-uchi: Hairyô tsuma shimatsu (aka Rebellion) – 1967

Masaki Kobayashi é um dos mais conceituados realizadores do sol nascente, no entanto, só à coisa cinco/seis dias, se deu a minha entrada nos seus filmes. A primeira parte do filme não me agradou (mas isto ocorre-me muitas vezes nas primeiras visões de vários filmes, sabem como é, o nosso batimento cardíaco não acompanha o sincopar do filme.) Parte essa que se ocupa de desvelar lenta e parcimoniosamente o enredo. Como o melhor jogo de xadrez, tudo se tenta encaixar, ocupar e aniquilar sem se tocar. Chegados ao final, tudo se encurrala, tudo se asfixia e tudo implode (há demasiado silêncio incomodativo para que haja uma explosão.) Como não esperava aquela lentidão inicial “tive” que adormecer uns cinco/dez minutos a meio do filme para, à alerta, assistir à perfeita meia hora final. A história, em traços gerais, com compreensíveis buracos, é qualquer coisa como isto: Isaburo Sasahara (o grande Toshirô Mifune), experiente samurai, é pai de Yogoro (Takeshi Kato), que se casa, com a outrora concubina do filho de um senhor feudal, Ichi (Yôko Tsukasa). Casamento esse que dá origem a uma filha Tomi. Certo dia o filho do senhor feudal morre, o que faz com que Tomi, primogénita, seja a herdeira natural do trono. Ichi e Tomi são arrancadas à família Sasahara para cuidarem da sucessão destinada. Isaburo e Yogoro não aceitam essas ordens, mas numa fase inicial cedem-nas, e rebelam-se contra os superiores hierárquicos. Assim é. Certa altura, quando já ninguém quer dar o braço a torcer e a honra consome os juízos, o bando de samurais do senhor feudal cerca a casa dos Sasahara e tudo implode. Yogoro e Ichi morrem abraçados, um ao outro, por amor. Isaburo como genial esgrimista que é consegue eliminar toda a frota de samurais (que em tempos treinara) e foge com a neta Tomi para a fronteira. Na fronteira encontra um dos seus mais fiéis súbditos que, sendo guarda fronteiriço, não tem alternativa senão enfrentá-lo: filmou-se aqui um dos mais belos combates que alguma vez vi. Depois surgem os balázios no silêncio do descampado. Espingardas atrás dos arbustos rebentam a pólvora, enchem o silêncio de estrondo, matam Isaburo, deixam Tomi só.
Isabura exalando gritos de desespero, pede a quem de comando, que cuide de Tomi. Assim acontece, a ama, que cuidara de Tomi, na ausência temporária da sua mãe, aparece (como e porquê nunca nos é dito nem mostrado), pegando-a ao colo e… Fim.

Se não se convenceram da essencialidade deste filme é porque, e só porque, eu não tenho trinta avos do talento necessário para escrever algo justo em relação a ele.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Mala Noche - 1985

Gus Van Sant já teve vários ups and downs, em termos de opinião pública e crítica, ao longo da carreira. Os ups iniciais não os conheço de todo (My Own Private Idaho, Drugstore Cowboy), os mais recentes (Elephant, Last Days) conheço-os eu bem, e são dos maiores ups do actual cinema americano. Mas no início, no início inicial, houve este filme que agora está em cartaz.
Pode-se dizer, sem assombramentos, que Van Sant estreou-se com o pé direito na realização. Num filme de temática assumidamente gay, como aliás alguns outros filmes que se lhe seguiram, e de estilo nova-iorquino, como John Cassavetes explorou, Van Sant filma a autobiográfica história de Walt Curtis. E filma como se fosse um filme on the road (acredito que esse seja o espírito do romance que lhe está na origem) parado numa cidade, Portland, do interior fronteiriço americano. E parado o protagonista, Walt (Tim Streeter), vê a chegada de dois novos jovens mexicanos à sua loja de bebidas. Em voz off o protagonista vai fantasiando sobre os dois jovens. Um deles, o que ele mais gosta, resiste aos seus avanços, o outro, segundo as suas regras e uma certa maquia, lá se entrega aos prazeres carnais de Walt. O filme não se esforça muito por contornar as seduções explícitas masculinas, e faz muito bem, mas nunca recorrendo ao efeito explícito que daí poderia advir.
Johnny (Doug Cooeyate), quem Walt verdadeiramente deseja, a meio do filme desaparece (descobre-se mais tarde que foi caçado pelas autoridades de emigração), ficando Walt somente com Roberto (Ray Monge). Começa então a transferir o desejo que tinha pelo outro para aquele. Desejo esse que nunca é correspondido, apesar de se enrolarem os dois na cama.
No final a coisa volta a alterar-se, é Roberto quem desaparece e Johnny quem reaparece. Tudo em aberto de novo. As hesitações voltam assim como a esperança.

Shurayuki-hime - adenda

3 bandidos:
o 1º aniquila-se psicologicamente suplicando (é aquele cuja filha o procura vingar); o 2º aniquila-se fisicamente (é aquele que não tem filhos, e é decepada na zona do ventre após o enforcamento); o 3º aniquila-se moralmente (tentando matar o filho para não morrer.)

Isto faz-vos algum sentido…?
É isto e o facto de andar a traduzir os títulos dos filmes, de diferentes nacionalidades, para inglês… porque carga de água?

Shurayukihime (aka Lady Snowblood) – 1973

A belíssima cantora pop japonesa Meiko Kaji é Yuki Kashima, nome de combate, Shurayuki-hime no filme de Toshiya Fujita.
O filme começa com o parto violento de mãe de Yuki Kashima no cárcere, rodeada de encarnadas mulheres prisioneiras, protegida do nevão que cai lá fora. E acaba com Shurayuki-hime ensanguentada caída na neve, não morta, mas sim regenerando. O meio do filme é preenchido com uma fabulosa história de vingança e sangue a jorros (a melhor palavra para caracterizar este filme talvez seja encarnado.) Shurayuki-hime nasceu do crer de vingança de sua mãe, que foi em tempos violentada por três homens e uma mulher, que também mataram o seu então esposo. Na cadeia, onde foi parar após matar um dos escumalhas, seduz vários guardas com o intuito de os fornicar e gerar a semente da vingança. A mãe morre no parto e a pequena Yuki é entregue a um monge, mestre de artes marciais, que a irá treinar e alimentar o seu desejo de vingança. Assim acontece, a vingança servir-se-á fria, como a neve, e em segunda geração.
Yuki Kashima feita mulher parte à procura dos restantes três bandidos. Cada capítulo do filme, tirando o prólogo e o primeiro, está destinado para esquartejar as entranhas de cada um. O primeiro a morrer é um alcoólico e jogador (perdedor) compulsivo. Morre suplicando e arrependendo-se dos seus actos. Deixa para trás uma filha que, mais tarde, também quererá vingança pela morte de seu pai. O segundo, uma mulher, enforca-se quando se sente encurralada pela espada de Shurayuki-hime. O terceiro, um poderoso chefe do submundo, é trespassado pela espada que, no mesmo golpe, trespassa o seu filho, que era então o amor de Yuki.
Este é um dos mais extraordinários filmes de vingança jamais feitos. Não só pelo sangue a jorros mas pelo facto de os actos de vingança consumados se esconderem por detrás de actos de cobardia cega. Os dois primeiros bandidos são mortos porque se “aniquilam” minutos antes da espada de Shurayuki-hime os trespassar. Só o último tenta sobreviver mas o seu filho rebela-se contra ele e sacrifica-se, pelo amor a Yuki, à espada de Shurayuki-hime. No final a filha do bandido alcoólico trespassa Yuki, com a sua espada, em acto vingativo pela morte do seu pai.
Há outros pormenores interessantes: o filho do chefe do submundo produz o jornal local onde vai relatando, à lá manga style (que são inseridas no scope do filme), os feitos de Shurayuki-hime; os momentos hiper-romantizados e os momentos hiper-violentos (os géisers sanguinolentos), todos eles bonitos demais; a montagem hiper-estilizada (nada se conta cronologicamente e os flashback repetem-se sucessivamente); o contraponto entre a paixão que nasce no filho, de um dos bandidos, e o ódio que nasce na filha, de um outro. E mais pormenores haverá certamente em revisões futuras do filme.
O último parágrafo que dedico a este extraordinário filme é em referência a Quentin Tarantino que o assume como influência primordial para o seu Kill Bill Vol.1 (eu digo: e não só). Da bela música de Meiko Kaji, ao bailado de espadas na neve, à secção por capítulos (ok, o Pulp Fiction já o fazia), ao sangue encarnadíssimo a jorros, à própria cadência do filme, quase tudo deve a este filme. No entanto os actos vingativos no filme de Tarantino não nos deixam em tão mau estar como este. Eu idolatrava o primeiro capítulo da saga Kill Bill mas, é um facto, que se volta a confirmar, que, à excepção de Pulp Fiction e Jackie Brown, os títulos de Tarantino se esvaziam perante as referências base.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Yabu no naka no kuroneko (aka Black Cat from the Grove) – 1968

Eu tenho o cérebro ocupado de mitologias cinéfilas, são elas: filmes que nunca vi mas que, pelo que li (e tento sempre não ler muito) e do pouco que me foi dado a ver, não deixam de ser da minha vida. É claro que aqui empolo um pouco o delírio. Não deixa contudo de ser verdade que alguns deles têm uma força tal na minha imaginação que já negligenciei a minha higiene diária para os “rever” cá “dentro”. Um desses títulos é Onibaba de Kaneto Shindo. Ainda não foi desta que o vi… vi sim um filme posterior a esse do mesmo realizador que segundo o Manuel Cintra Ferreira, da Cinemateca Portuguesa, pisa os mesmos terrenos que aqueloutro sem chegar à sua mestria.
E o que dizer catraios… se calhar deveria acabar aqui o post, não?... não, posso-vos falar um pouco da sua narrativa… No tempo das guerras civis japonesas, que se estendeu aos clãs dos samurais, Gintoki (Kichiemon Nakamura), um camponês, tem que deixar para trás a sua esposa, Shige (Kiwako Taichi), e a sua mãe, Yone (Nobuko Otowa), para defender o seu território contra os bárbaros. Certo dia, mãe e filha são assaltadas, violadas e mortas por uma dezena de samurais. Surge então o gato preto que lhes devolve a “vida” sob uma maldição: as duas fantasmas terão de seduzir e matar todos os samurais que passem por aquela floresta de bambu. Assim é. Um atrás doutro, todos morrem sob os encantos delas.
Gintoki, o jovem camponês agora condecorado samurai pela sua valentia, regressa a casa e não encontra lá as mulheres. Presume ele que fugiram, pois não seria caso único naquele tempo tumultuoso.
Com o desaparecimento de vários samurais da região o chefe do seu clã ordena-o que elimine o “monstro” que atormenta os cavaleiros. Gintoki parte então para a noite da floresta de bambu. Encontra-as, reconhece-as e é seduzido pela sua falecida mulher. Shige no dia seguinte já não existe, pois não matou aquele samurai. Não o matou quando o amava na cama, leito fatal para os outros. Sobra Yone, a mãe…
Epá, já estou a contar demasiada história e não é certamente de histórias que vivem os filmes, mas sim, neste caso mais que noutros, de fantasmas. É vê-las a voarem naquele scope a preto&branco. É vê-las em rituais de morte (a dança de morte da mãe!) É vê-las, as luzes, a formarem os corpos e a apagarem-nos…
Isto é do melhor cinema de terror, é do melhor cinema de amor, é do melhor cinema “chambara” (género de samurais) de sempre e nem sequer é Onibaba…!
Os deuses (ou o Manuel Cintra Ferreira) devem estar a gozar comigo, ai devem, devem…

Death Race 2000 – 1975

Filho da New World (produtora de Roger Corman) Paul Bartel, como seria de esperar, sabe poupar. Poupa nos planos, nos efeitos especiais, no guarda-roupa e na conversa de chacha. O que me surpreende nesta primeira geração de “filhos” de Corman é exactamente essa secura, pois seguiram os ensinamentos do “pai” e raramente pretenderam mudar de rumo (geralmente aplaudimos aqueles que se rebelam contra os pais e no entanto aqui a lógica é inversa.) Há pouco dinheiro, logo há pouco tempo, logo… não interessa filme haverá certamente. O espírito cormaniano prevalece(u) em alguns deles.
No longínquo ano 2000 existe uma corrida de carros marados que atravessa de lés a lés os E.U.A. Da costa este à costa oeste os cinco concorrentes disputam a liderança na prova e a devida saudação presidencial. Pelo meio podem angariar pontos atropelando pessoal (como aquele jogo de computador, sabem, aquele que surgiu algures nos anos 00.) Pois bem, nesse ano 2000 este é o desporto com maior audiência a nível mundial (ou não fossem os E.U.A. o mundo), o que faz com que os rebeldes franceses o queiram sabotar, sob o pretexto daquilo ser um jogo amoral. Melhor: o presidente e os media americanos ignoram as suas represálias, ou seja, nada fazem para as impedir.
Paul Bartel filma essa corrida disparatada como uma sátira política e social enraizada na cultura de entretenimento americana de então (agora ela assume outros contornos), fazendo um filme de entretenimento. E aqui, quanto a mim, reside a inteligência (e na verdade, de certa forma, o descomprometimento) deste projecto de Bartel. Ele vai jogar com várias referências dessa cultura de entretenimento americano (os desportos motorizados, os action movies, o burlesco à lá Chuck Jones e Tex Avery, os conflitos internacionais, etc) para construir à nossa frente um Frankenstein (que é aliás o nome da personagem principal interpretada por David Carradine.) Frankenstein esse totalmente desarticulado, com os parafusos à mostra, para que nos entretenhamos a desmontá-lo enquanto o vemos.
Tenho de referir também, para apimentar o vosso interesse, que anda por aqui um Sylvester Stallone, em início de carreira, e pelo menos quatro gajas boas (e algumas delas mostram os rabos&mamas.) E Simone Griffeth é nome para estar na ponta da língua.
Se ainda não se convenceram devem ter algum tumor a afectar-vos a cachimónia… mas aqui ficam outras dicas: os fãs das Wacky Races, da dupla Hanna-Barbera, devem delirar com isto; e o… (já arranjaram adjectivos para isto?) Escape from New York de John Carpenter deve ter brotado daqui.